Por que a base do Santos supera a do São Paulo?

Por que a base do Santos supera a do São Paulo?

Eis uma boa pergunta.

O São Paulo, conhecido por ser um dos clubes mais prepotentes do Brasil, exalta suas categorias de base em Cotia, no interior do Estado, como a melhor do país.

Pelo menos na estrutura, certamente, é a melhor.

De acordo com o site oficial do clube, o Centro de Treinamento de Cotia foi inaugurado em 16 de julho de 2005, e está erguido em um terreno de 220 mil metros quadrados (só para se ter uma ideia, o CT Meninos da Vila, do Santos, está instalado em uma área de apenas 25.500 metros quadrados), contendo 6 campos de futebol, um mini estádio para 1.500 pessoas, um alojamento para 148 hóspedes, além do conhecido REFFIS (Núcleo de Reabilitação Esportiva Fisioterápica e Fisiológica), o qual, ao contrário do CEPRAF santista (centro médico do Peixe), foi capaz de recuperar o eternamente lesionado Paulo Henrique Ganso.

Mas como nem tudo são flores o São Paulo terá que devolver o terreno para à prefeitura em 2022, onde ocupa a título de permissão pública.

Nos últimos anos, foram formados na base são-paulina os seguintes jogadores: Kaká, Lucas, Hernanes, Oscar, Jean, David Luiz, Hulk, Romarinho, Kleber Gladiador, Diego Dardelli e Paulo André.

Mas quais desses atletas realmente atuaram pelo São Paulo Futebol Clube?

Kaká, Lucas, Hernanes, Diego Tardelli e Kleber Gladiador realmente se destacaram com a camisa tricolor, e renderam títulos ao clube, antes de serem vendidos para clubes europeus.

Mas só esses 5.

O meia Oscar e o volante Jean, hoje no Fluminense, foram muito mal aproveitados no clube, de onde saíram pela porta dos fundos para obter destaque na Seleção Brasileira

David Luiz, Hulk, Romarinho e Paulo André foram todos dispensados da base são-paulina, pelos mais diversos motivos, e nunca sequer entraram em campo pelo time profissional, assim como vários outros jogadores que um dia parariam nas categorias de base do Santos.

Isso sem falar de Lucas Piazón, grande estrela da base são-paulina que, como o zagueiro corintiano Marquinhos (hoje no Paris Saint-Germain), foi vendido para a Europa antes mesmo de atuar no time profissional.

Um bom exemplo disso é o fato do maior campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior ser justamente o Corinthians, com 8 títulos, que nunca revela ninguém, enquanto o São Paulo permanece empatado com o Santos como o 4º maior vencedor, com 3 títulos.

Vamos falar agora sobre a base do Peixe.

Na canteiras alvinegras, foram formados os seguintes jogadores, de 2000 para cá: Alex, André Luís, Paulo Almeida, Diego, Robinho, Neymar, Ganso, Wesley, André, Rafael, Alan Patrick, Felipe Anderson, Alison, Alan Santos e, mais recentemente, Geuvânio e Gabigol.

Todos esses jogadores, sem exceção, brilharam na base e no time profissional do Santos Futebol Clube.

Não foram dispensados da base e, no meio do caminho, brilharam por outras equipes, como vários jogadores da base são-paulina.

Neste sentido, os dois campos de treinamento do CT Meninos da Vila são o que menos importa na formação dos atletas de base do Santos Futebol Clube.

Mas por que, então, os Meninos da Vila dão certo no Santos e os jovens de Cotia não se firmam no São Paulo?

A resposta pode vir de Narciso, outro atleta formado nas canteiras de base santista, mas que, depois de aposentado, treinou e foi campeão com times da base do Santos, Corinthians e Palmeiras.

Nesta entrevista dada à ESPN, Narciso fala sobre a diferença da a base santista para as demais, e aponta as seguintes razões que diferenciam e destacam a base alvinegra.

1) O Santos põe os meninos para jogar

"Com isso o atleta se sente confortável, porque ele quer espaço para que possa jogar. Em 2012, por exemplo, fui campeão com o Corinthians fazendo a melhor campanha do clube na história da Copa São Paulo de Futebol Júnior, e mesmo assim o clube não revelou nenhum daqueles jogadores. Se essa geração fosse formada no Santos, vocês podem ter certeza que hoje haveriam 5 ou 6 desses jogadores atuando de titulares no Santos Futebol Clube. Então hoje quando alguém procura um clube para seu filho, a primeira opção sempre é o Santos, porque sabem que aqui o menino vai ter uma chance maior de jogar".

2) No Santos há integração entre os jogadores de base e os profissionais

"Fiquei 1 ano e meio no Corinthians e 1 ano no Palmeiras e nunca fizemos um coletivo contra o time profissional. Se os nossos jogadores vissem os jogadores do profissional pediriam autógrafo. No Santos, ao contrário, os meninos disputam coletivos contra os profissionais a cada 15 dias, 10 dias, uma semana".

3) No Santos, a técnica importa acima de tudo

"O Santos não liga se o jogador é franzino ou não. O jogador precisa ser tecnicamente bom. Se for um atacante franzino, então, aí sim que o Santos vai querer, por lembrar do Robinho, Neymar".

4) Na base santista, não se cobram títulos mas sim a evolução dos atletas

"Os diretores do Santos não cobram para a base a conquista de títulos, mas sim a evolução dos atletas, o que deixa o técnico confortável para trabalhar. Na base do Santos o importante era formar o atleta para que ele chegasse ao profissional bem, maduro e consciente daquilo que ele teria que fazer".

5) A tradição do Santos em apostar nas categorias de base

Segundo o eterno santista Pepe, "a partir de 1955 a diretoria que entrou resolveu dar mais força aos jovens. Aos jogadores formados na equipe de base".

Assim, desde aquele ano surgem novas gerações vitoriosas de Meninos da Vila.

Em 1962, surgiram na base Pelé, Coutinho, Pepe, Edu, Clodoaldo, dentre outros.

Em 1978, seria a vez da segunda geração de Meninos dar as caras, com Juary, João Paulo, Ailton Lira, Clodoaldo, etc.

Em 2002, a conhecida geração de Alex, André Luís, Paulo Almeida, Diego e Robinho.

A quarta geração veio em 2010, com aquele fantástico time de Rafael, Wesley, Ganso, Neymar, Robinho e André, todos formados nas canteiras alvinegras.

Hoje, estamos vivenciando a quinta geração de Meninos da Vila, com Gustavo Henrique, Jubal, Emerson, Zé Carlos, Daniel Guedes, Alison, Alan Santos, Leandrinho, Geuvânio, Giva e Gabriel Barbosa (Gabigol).

6) A paciência da torcida santista com os jogadores

A característica do Santos é revelar jogadores de suas categorias de base, algo que o São Paulo não tem. Há plena empatia e principalmente paciência, por parte do torcedor santista, em esperar o desenvolvimento gradual do jogador de base até sua formação completa a brilho pelo profissional, assim como foi com Neymar, apagado em 2009, Ganso, apagado em 2008, Wesley, várias vezes emprestado, e por aí vai. O torcedor são-paulino, por característica do clube, não tem essa paciência, o que faz com que vários jogadores com potencial sejam perdidos, por conta de pressão da torcida. Para citar um exemplo, o zagueiro e volante são-paulino João Schmidt, formado em Cotia e capitão de todas as seleções de base por onde passou, teve pouquíssimas oportunidades no time profissional, conforme bem analisado pelo jornalista Paulo Vinícius Coelho no início deste ano.

E esses são os 6 motivos por que a base do Santos supera de longe a base são-paulina, com grande infraestrutura, mas que revela na prática poucos jogadores.

Obviamente, nem citei as bases do Corinthians e Palmeiras, até com bons jogadores (no caso da base corintiana), mas muito mal aproveitados, como no caso do zagueiro Marquinhos, vendido pelo Corinthians por uma pechincha para a Roma, e que em 6 meses de tornaria o zagueiro mais caro da história, ao ser comprado pelo Paris Saint-Germain com apenas 19 anos de idade.

São Paulo, Corintahians e Palmeiras são clubes com característica de compradores, de quem prefere comprar a formar.

O Santos, ao contrário, destaca-se como um clube formador de atletas.

A base continua e sempre continuará salvando o Santos Futebol Clube.

Afinal, os meninos pertencem à nossa história, à nossa tradição.

São também a razão por que o clube nunca foi rebaixado para a segunda divisão.

Além, claro, de revelar craques como Robinho, Neymar e Gabigol.

Acham que é pouco?

Basta perguntar a Corinthians, Palmeiras e São Paulo...