Como a decisão da FIFA influencia o Santos?

Leandro Damião

(texto de Rodrigo Capelo Júnior, publicado no blog "Dinheiro em Jogo")

Como a decisão da Fifa de banir investidores muda o futebol

Pressionada por Michel Platini, presidente da Uefa, a Fifa admitiu publicamente pela primeira vez nesta sexta-feira o que já se esperava dela há meses: proibirá que investidores tenham participação em direitos econômicos de jogadores. Isso vai levar “três ou quatro anos” para virar regra, nas contas de Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, mas é fato que vai mudar todo o modo como são feitas transferências de atletas no futebol, inclusive, e principalmente, no brasileiro.

Como funcionava
Até hoje, direitos econômicos de atletas eram repartidos entre clubes, empresários, fundos de investimento e os próprios jogadores. Não é exatamente um “passe”, porque ninguém pode ser dono de ninguém segundo a legislação. Isso é escravidão. Mas tem a ver com a multa rescisória.

Digamos que Joãozinho, jovem e talentoso, joga no XV de Piracicaba. Um fundo endinheirado investe nele para tirá-lo de lá e colocá-lo no Flamengo, uma vitrine muito maior, mas quer ter, obviamente, retorno financeiro. Então fica assim: os direitos econômicos, que representam a multa que qualquer clube teria de pagar para levá-lo do Flamengo tempos depois, ficam 70% para este fundo, 20% para o Flamengo e 10% para o pai do atleta, que ajudou no negócio.

Durante todo o período em que Joãozinho jogar no Flamengo, o fundo não recebe nenhum centavo. Não paga salários, não paga bicho, mas não ganha nada. O lucro só vem depois que Joãozinho for vendido para o exterior. O Barcelona aparece e decide desembolsar € 10 milhões para pagar a multa e levá-lo para jogar com Messi e Neymar. Desses, € 7 milhões vão para a conta do fundo, € 2 milhões, para a do Flamengo, e € 1 milhão, para a do pai do garoto.

Esse modelo gerou alguns efeitos terríveis. Como o investidor só lucra quando a transferência é feita, passou a haver pressão para que o jogador vá embora logo. É por isso que teu time perde a revelação da temporada em menos de um ano. Clubes, animados em poder reforçar a equipe com o dinheiro dos outros, viraram reféns dos fundos. A maioria dos atletas de times profissionais no Brasil tem direitos repartidos. Tempos depois, a receita com a venda de revelações para o exterior foi comprometida, porque, afinal, os direitos são dos outros.

Por que a Fifa se mexeu
A vontade de afastar investidores dos direitos econômicos de atletas não é exatamente da Fifa, mas da Uefa e, principalmente, do futebol inglês. Os britânicos acabaram com a graça de fundos e empresários já em 2008, quando viram que Carlos Tévez, transferido do Corinthians para o West Ham, não tinha nenhuma participação do time do país nos direitos econômicos. O iraniano Kia Joorabchian, da MSI, podia decidir onde, quando e por quanto ele jogaria.

Ingleses não podem contar com dinheiro de terceiros para contratar desde então, mas demais europeus podem. Um relatório da KPMG espanhola de 2013 mostrou que 36% de todos os atletas que jogam em Portugal têm direitos dominados por fundos. Na Espanha, este número chega a 8%. Logo, como se sentiam em desvantagem perante adversários do resto do continente, os ingleses apertaram a Uefa, que colocou a Fifa na parede. Michel Platini, presidente da entidade europeia, a pressionava há meses.

Quem sai na frente
Como a discussão de banir investidores dos direitos econômicos não é nova, há quem já esteja na frente agora que a brincadeira vai mudar. Isso explica por que a Doyen Sports mudou o modo como faz negócio ao financiar a transferência de Leandro Damião do Internacional para o Santos, a mais cara entre clubes domésticos no Brasil, por € 13 milhões (R$ 42 milhões).

A Doyen não quis direitos econômicos de Damião. Em vez de fazer papel de agente de atletas, o fundo britânico agiu como uma instituição financeira: ela emprestou o dinheiro ao Santos e vai recebê-lo em cinco anos, com juros de 10% ao ano, aconteça o que acontecer. Com um bônus: se o jogador for vendido por menos que € 13 milhões, o dinheiro é usado para abater parte da dívida, que de qualquer maneira será paga integralmente. Se Damião sair por mais, 80% do que passar de € 13 milhões fica para a Doyen e 20% para o Santos.

Isso faz do negócio excelente para a Doyen e péssimo para o Santos. Na pior das hipóteses, de Damião se machucar, não jogar ou não jogar bem, o fundo vai receber os € 13 milhões que investiu com lucro. É seguro. Na melhor, de Damião surpreender, voltar à seleção brasileira e ser vendido por uma bolada, é a Doyen que fica com a maior parte dos louros, não o Santos. Para o clube, sobrou um risco muito alto numa hipótese e um ganho muito baixo na outra.

Esta é uma fórmula que tende a se tornar mais corriqueira agora que a Fifa vai banir terceiros nos direitos econômicos. A Doyen saiu na frente e já tem um modelo de negócios que poderá replicar com outros atletas e clubes daqui em diante. Outros fundos terão de correr atrás, porque as regras podem mudar, mas certamente eles continuarão a fazer parte do futebol.