Hipocrisia na Arena do Grêmio*

Grêmio racismo Aranha

De tudo que li e ouvi sobre as recorrentes injúrias raciais praticadas por grande parte da torcida do Grêmio presente no jogo de quinta-feira, nenhum comentário resumiu melhor a situação do que este post, do jornalista Cosme Rímoli, publicado ontem em seu blog, o qual pode ser acessado clicando neste link.

O referido jornalista, aliás, já até apanhou de membros de uma torcida organizada do Grêmio, em 2007, quando chegava ao estádio para cobrir o jogo do clube gaúcho contra o Corinthians.

Vale a pena a leitura de cada frase...


HIPOCRISIA NA ARENA DO GRÊMIO

(pelo jornalista Cosme Rímoli)

Foi nojento.

Tudo orquestrado, combinado.

Bastou Aranha pisar no gramado da arena do Grêmio para começar.

Inúmeros torcedores gremistas começaram a gritar todos os palavrões que sabiam.

"Filho da puta, corno e veado" eram os prediletos.

E não se continham com palavras.

Vários mostraram os dedos médios das mãos.

Em comum, a fisionomia de ódio ao goleiro santista.

Aranha teve a coragem de se revoltar contra os gritos racistas de 'macaco', 'preto fedido' proferidos no dia 28 de agosto no mesmo estádio.

Sua postura corajosa fez com que o Grêmio fosse eliminado da Copa do Brasil. 

Uma mulher de 23 anos, Patrícia Moreira da Silva, resumiu de maneira pavorosa a situação. 

Flagrada pelas câmeras de tevê gritando com raiva 'macaco' para o jogador negro que evitava que seu Grêmio marcasse algum gol. 

E fazia cera como todos os goleiros do mundo.

A postura de centenas, milhares de torcedores gremistas ontem foi vergonhosa. 

Eles perderam uma oportunidade de ouro. 

Seria a hora de mostrar ao Brasil a ignorância que é generalizar. 

Mostrar o erro que flamenguistas e várias outras torcidas comentem onde o time de Luiz Felipe Scolari vai depois daquele jogo. 

O ódio ao Aranha tão bem registrado pelas tevês só irá reforçar a associação de racismo ao clube tricolor. 

O que é um absurdo, já que milhões não podem pagar por uns poucos. 

Só o que aconteceu ontem foi deprimente.

"Nunca me senti tão mal em jogar em um lugar como me senti hoje. Vou ter de voltar outras vezes aqui, com tristeza. Mas foi bom para eu aprender. Esperava ser recebido de outra maneira. Porque eu acreditava que a grande maioria do torcedor gremista tinha repudiado, não concordado com aquelas atitudes (racistas). Mas pelo que vi hoje, eles concordam com tudo. Acham isso (o racismo) bonito. Mas eles seguem a vida deles e eu a minha."

Enderson Moreira perguntou ainda em Santos se Aranha queria jogar ontem contra o Grêmio, em Porto Alegre. 

Voltar ao estádio onde sofreu com racistas. 

E se envolveu em uma enorme polêmica que acabou com o banimento do clube da Copa do Brasil. 

O jogador insistiu que fazia questão de voltar. 

Tinha a certeza que seria apoiado pela maioria da torcida gremista. 

Iludido, pensou até que seria aplaudido. 

Uma reação que mostraria o quanto os gaúchos repudiariam os gritos de 'macaco' e 'preto fedido' dirigidos a ele.

Ledo engano. 

Membros das principais organizadas sabiam muito bem o que fazer. 

Demonstrar seu ódio ao jogador. 

Xingá-lo de todos os piores palavrões possíveis.

Menos os racistas. 

Mostrar que estádios de futebol são os lugares reservados para o lixo da sociedade. 

Onde todas as frustrações, rancor e baixezas são permitidos. 

E desde o aquecimento, primeiro tempo, ida para o intervalo, volta do intervalo, segundo tempo e final do jogo. 

Durante todo esse tempo, havia gremistas xingando Aranha de 'filho da puta, veado e corno". 

Mostrando os dedos médios.

"Não tem perdão para eles. Muita gente morreu (por causa do racismo), muita gente sofreu. Tem gente que acha que está errada a punição. Fazer o quê? Paciência. Vim jogar futebol. Dei meu melhor. Esperava ser recebido de outra maneira. Acreditava que a maioria da torcida não tinha concordado com as atitudes", dizia o goleiro que jogou muito bem de novo, evitou a derrota santista, garantindo o 0 a 0.

A negativa de perdão se justificava. 

Homens, mulheres, crianças, velhos. 

O ódio nas arquibancadas era assustador. 

A combinação era evidente. 

E se propagava pelo estádio. 

Só 'macaco' e 'negro fedido' e outras expressões que lembravam racismo eram proibidas. 

O resto estava liberado. 

Mas muitos gremistas assumiam como obrigação a retaliação, humilhar o goleiro que expôs o pior que acontecia nas arquibancadas em Porto Alegre. 

As letras provocativas das organizadas taxando os rivais do Internacional como 'macacos'. 

Que o Brasil parou para ouvir, prestar atenção depois de Aranha.

O jogador santista foi parado por repórteres na saída do jogo.

Entre eles havia uma mulher, gaúcha. 

Ela fez de conta que não entendeu quando Aranha reclamava sobre a hipocrisia. 

Sobre a postura deplorável dos torcedores que o xingaram ontem, o tempo todo.

Ela insistia que não entendia do que ele estava reclamando. 

O jogador santista foi ficando irritado. 

Percebendo que a repórter fingia não perceber a retaliação contra o goleiro. 

E que não teve nada de natural.

"Todo mundo sabe que a vaia hoje foi diferente. Ou não foi? Você sabe por quê? Por tudo o que aconteceu no outro jogo. Ou você concorda com o que aconteceu?" Falou e saiu de perto irritado. 

A repórter de Porto Alegre sorria, satisfeita. 

Ela havia conseguido tirar o jogador do sério. 

Postura deplorável, bairrista.

O Rio Grande do Sul não é o lar dos racistas. 

Muito longe disso. 

Mas existem alguns que estão manchando a imagem do Estado, do Grêmio. 

Eles deveriam ser combatidos. 

Não protegidos. 

O que aconteceu ontem na arena foi repugnante. 

Porque um jogador negro não aceitou ser chamado de 'macaco' em um estádio de futebol foi marcado. 

E massacrado moralmente. 

Ou como sua mãe, irmãos, esposas, filhos se sentiram vendo e ouvindo novos ataques gratuitos a Aranha?

O pior de tudo é a expectativa que cerca o julgamento do recurso do Grêmio. 

O pleno do STJD irá decidir novamente se mantém ou não a exclusão do time da Copa do Brasil. 

A decisão foi aplaudida no mundo todo. 

Até a Fifa parabenizou a CBF pela postura firme contra o racismo. 

O repórter Luiz Henrique Benfica, do Zero Hora, é muito bem informado. 

Ele garante que a expectativa dos gremistas é de perdão. 

Os auditores devem esquecer o banimento e recolocar o time na Copa do Brasil. 

E transformar a punição em apenas duas perdas de mando na mesma competição, só que em 2015.

Se Benfica estiver certo será um absurdo. 

A desmoralização de vez do futebol brasileiro. 

Alguns torcedores gremistas chamam Aranha de 'macaco' e até imitam o animal. 

O motivo é pelo jogador santista ser negro. 

Vinte dias depois, os dois times se encontram no mesmo palco. 

O goleiro é massacrado moralmente por muitos outros gremistas. 

Só não ouve gritos racistas. 

O resto estava liberado. 

E uma semana depois, o Grêmio é perdoado? O exemplo é esquecido?

Se isso acontecer, será a senha para os intolerantes serem convocados de vez para as arquibancadas dos estádios brasileiros. 

Se é tolerado o racismo, como barrar outros radicais? 

Há quem não suporte judeus, árabes, orientais, índios, nordestinos e até gaúchos. 

Os auditores do STJD têm uma missão importantíssima, histórica nas mãos.

O problema nunca foi o Grêmio. 

Nem sua torcida como um todo. 

Muito menos todos os membros das organizadas. 

Mas os racistas infiltrados.

A exclusão da Copa do Brasil serviu para mostrar que eles não serão tolerados. 

O que aconteceu ontem na arena com Aranha só reforçou o acerto da decisão.

Se o STJD voltar atrás e recolocar o Grêmio na Copa do Brasil, causará o maior prejuízo na luta contra o racismo no futebol desse país. 

A situação é surreal, mas muito possível. Infelizmente, a prática recomenda esperar sempre o pior vindo da CBF...

goleiro Aranha com família