Modesto Roma Júnior: planejamento e boa gestão



Modesto Roma Júnior tem 62 anos, é jornalista e foi conselheiro do clube de 1971/1978, de 1983/1987, e de 2008/2009, além de diretor de comunicação (1975/1978), vice-presidente de comunicação (1983), supervisor administrativo do clube (2004/2009) e supervisor do futebol feminino (2007/2009). 

O candidato lidera a chapa "Santos Gigante", manifestamente de oposição, e tem o apoio do ex-presidente Marcelo Teixeira.

Dentre suas principais propostas e ideias, manifestadas nas entrevistas concedidas aos portais Globoesporte e Lance!Net, destaco os seguintes:
- Aposentado, promete se dedicar exclusivamente ao clube.
- Promete renegociar a dívida do clube.
- Mostra-se contrário ao Comitê de Gestão, e promete lutar para alterar o estatuto do clube nesse sentido, buscando a criação de um "Conselho de Administração", que atuaria no planejamento de todo o clube, deixando a cargo do presidente a palavra final sobre qualquer contratação.
- Promete gastar somente de acordo com as receitas do clube, e nunca emprestar dinheiro ao clube.
- Diz que vai buscar receitas para o clube no Marketing, com ideias como a criação de um Parque Temático do Santos FC.
- Não culpa a Globo pela falta de exposição dos jogos do Santos na mídia, mas sim o próprio clube, que segundo ele apresentaria um espetáculo de péssima qualidade, afastando o torcedor do estádio (desconsiderando o fato que Corinthians e Flamengo, mesmo fazendo jogos sofríveis, continuam aparecendo na principal emissora do país).
- Promete discutir com a Rede Globo para evitar a "espanholização" do futebol brasileiro.
- Promete conversar com todos os profissionais do clube, afirmando que os manterá ou os demitirá de acordo com o mérito de cada um (Enderson Moreira, Zinho, André Zanotta e Sandro Orlandelli).
- Demonstra um pouco de desconhecimento sobre o plano Sócio-Rei ("Não sei. É assim que está funcionando? Não sei como está funcionando hoje. Como tenho cadeira cativa, a minha situação é um pouco diferente. Não sei. Não vou te responder algo que não tenho segurança (...)").
- Prefere a Vila como "estádio-boutique" a Alçapão.
- Acha inviável a construção de uma nova Arena para o Peixe, por falta de recursos financeiros.
- Defende a boa relação com as torcidas organizadas, criando um plano para tornar seus membros sócios do clube.
- Promete planejar com bastante antecedência os jogos fora da Vila Belmiro.

Com isso, deixo a vocês os principais pontos das entrevistas concedidas pelo candidato Modesto Roma aos portais Globoesporte e Lance!Net:

ENTREVISTA CONCEDIDA AO LANCE!NET

Você tem condição familiar, de saúde e financeira de se dedicar exclusivamente ao Santos por três anos?
- Em 1985 eu fui para São Paulo fazer minha vida financeira. Trabalhei até 2010, quando pude me aposentar. De 2010 para cá tenho me dedicado a meus prazeres. Passei a tomar conta de um time de futebol feminino de Pernambuco como diversão e lazer, até pela minha amizade com as meninas. A minha vida de trabalho profissional terminou, agora posso trabalhar sem ser profissionalmente. Embora pense que está na hora de acabar com a hipocrisia, dirigente de clube tem que ser assalariado hoje. Não é a situação atual, já que o próprio estatuto proíbe qualquer pagamento ao presidente.

Se eleito, quais serão suas primeiras medidas? Há projetos emergenciais?
- Nosso plano de gestão tem cinco grande eixos. O primeiro é o da renegociação da dívida, nós temos que pagá-la. Faremos isso com uma empresa especialista em gerir crise e renegociar dívidas. Essa empresa equacionaria o problema do clube. Além disso temos de fazer uma reorganização estrutural do clube. E estatuariamente, já que o Comitê de Gestão da forma que está é um erro, deveria ser um conselho de administração. Existem outros problemas estatutários. O quadro funcional do clube também precisa ser estudado. Não é caçar bruxa, não. Tem gente falando que quando eu assumir vou mandar todo mundo embora. Isso não é verdade. Mas vamos optar pela meritocracia, os competentes ficam.

O senhor se mostra contrário ao Comitê, mas antes de qualquer mudança estatutária terá de governar o clube com essa estrutura. Como pretende fazer? Cada membro do órgão cuidará de uma área específica? 
- Não, sabe por que? Porque assim você põe para amadores tarefas que é do profissional.

O que planeja para o Comitê?
- Ele terá a função de planejar. O Santos precisa se planejar muito bem. E o Comitê será fiscalizador também, para que os profissionais cumpram o orçamento, estejam desempenhando bem suas funções... Ele vai ser um órgão de muito trabalho e que será muito exigido.

Um exemplo: o Comitê será ouvido antes da contratação de um jogador?
- Em princípio, não. Mas o estatuto diz que se a operação for de um valor 20% acima do orçamento, o Comitê tem de ser ouvido. Existem regras. Não vamos gastar o dinheiro do orçamento todo em um jogador. Mas aí vamos colocar profissionais responsáveis. O que não vai ser discutido é o preço do cafezinho.

Retomando: quais serão as suas primeiras medidas?
- Nós vimos o gabinete de crise, que vai gerir a renegociação da dívida, e a reestruturação organizacional. Aí vamos para o terceiro item que é fundamental: administração. E que tem um limite para gastar. Tem que ser de acordo com as receitas, nunca acima, sempre dentro do orçamento do clube. O gabinete de crise vai cuidar de 31 de dezembro para trás. A administração cuida de 1º de janeiro para frente, com a responsabilidade de arcar com todos compromissos.

E onde buscar recursos para honrar esses compromissos?
- No quarto eixo, que é o marketing. Costuma-se dizer que o Santos comprometeu as receitas futuras. Não. O Santos comprometeu as receitas de TV. Mas o clube não tem patrocínio master, não tem tido novos produtos no mercado, não tem tido incremento na bilheteria. Tem que fazer receitas. O marketing do Santos tem que gerar receita, como patrocínios, todas essas coisas.

Você acredita que terá resultados nessa área no curto prazo?
- Já estamos trabalhando para isso. Queremos já assumir com a definição de quem cuidará dessa área. E será uma pessoa de marketing. Não será publicitário, jornalista, relações públicas...

Foi mencionado em uma de suas últimas respostas o adiantamento da cota de TV. Como você avalia o atual contrato com a Rede Globo?
- A exposição está ruim. É por culpa da Globo? Será que não é culpa do espetáculo, que não está atraindo atenção? Quando tínhamos o Neymar ou o Robinho atraíamos mais atenção da TV.

Mas o Robinho voltou e o Santos segue sem aparecer...
- Outro dia fui na Vila Belmiro, e as pessoas falavam "nossa, que jogo chato". Se você estivesse em casa, como torcedor, não teria assistido o jogo até o fim. E a TV é sensível a isso. "Ah, a Globo é sacana com o Santos". Não, o Santos é sacana por não apresentar um bom espetáculo. E aí a gente entra no quinto eixo, que é o futebol. Como você faz para ter patrocinador, aparecer na mídia e ter gente comprando seus produtos? É tendo ídolos, espetáculo e paixão do torcedor. O futebol do Santos tem que jogar com a alma da torcida.

O senhor falou em ter ídolos. Hoje o Santos tem o Robinho e, em menor importância, Arouca, Gabigol e outros. Espetáculo foi dado em alguns jogos, como na goleada sobre o Botafogo por 5 a 0, e paixão não falta ao torcedor. Mas nesse jogo mencionado, por exemplo, o Santos teve apenas 15 mil pessoas no estádio - e era uma decisão da Copa do Brasil. O senhor acredita que são só com esses três itens vai resolver o problema?
- Nesse jogo o público entrou antes da goleada.

Mas vinha de quatro vitórias seguidas.
- Mas sem espetáculo! O torcedor do Santos é exigente, aí você resolve fazer jogo às 21h no Pacaembu, dia 15, quando o salário já está acabando.

Porém, não é o clube que define isso.
- O planejamento, sim. Se você planeja que a quarta de final da Copa do Brasil vai ser no Pacaembu o torcedor estará preparado. O que não pode é ficar mudando. Tem que dar ao torcedor o direito de ele se programar. A casa do Santos é onde está sua torcida. E o Pacaembu também é a casa do Santos. E você me pergunta: "Você vai arrendar o Pacaembu?" Não, eu alugo quando eu preciso.

Já falaremos de estádio, mas antes gostaria de finalizar o debate sobre o atual contrato com a Globo. É preciso renegociá-lo?
- Vou discutir com a Globo, sim, até porque eu acho que o modelo atual vai fazer com o futebol brasileiro o mesmo que aconteceu na Espanha, pois se privilegia só dois clubes. O que vai acontecer? Vai polarizar as disputas entre quem recebe mais.

Essa discussão tem que ser de forma coletiva? O senhor pretende liderar essa conversa?
- Podemos assumir a liderança se tivermos o acesso, mas isso vem naturalmente. Existem homens muito competentes no futebol, como o Aidar, do São Paulo, o Paulo Nobre, do Palmeiras, o Gobbi, do Corinthians. São pessoas competentes, e eu me considero também. Mas não posso me colocar como líder antes mesmo da eleição, seria muita presunção.

Tal tema é prioritário ou no começo do seu mandato você pretende primeiro colocar a casa em ordem e só depois tratar destas questões mais amplas?
- Existem pessoas competentes para colocar a casa em ordem. O trabalho de retomar a representatividade do Santos perante os demais clubes e as confederações é um trabalho político, que compete ao presidente. Logicamente que vamos falar com o presidente da Federação, da CBF, da Conmebol, da Fifa...

Você acredita que tem de haver um maior diálogo com a CBF ou o caminho é o do rompimento e a criação de uma liga independente?
- A legislação dá o comando do futebol à CBF, e a Fifa entende que ela é a entidade representativa do nosso futebol. Se a CBF quiser, por questões econômicas e financeiras, criar a liga, e os clubes entenderem que esse é o caminho, assim faremos. Não podemos fazer discursos vazios. Como assim romper com a CBF? O que é isso? Vou me fazer ouvir lá.

Hoje o Santos é ouvido?
- Não sinto isso.

O ex-presidente Marcelo Teixeira, que o apóia, adotou uma prática de emprestar dinheiro do próprio ao clube. O que o senhor acha desse tipo de medida? Faria igual?
- Em primeiro lugar, isso é um pouco do plano de demonização do Marcelo. Para tirá-lo do poder, criaram uma figura de demônio. Ele nunca colocou dinheiro do bolso a juros abusivos. Nunca cobrou juros. Esse dinheiro que o clube está devendo ao Marcelo é resultado do aval que ele deu. Foi aos bancos, deu o aval dele e, quando saiu, a diretoria que o sucedeu disse ao banco: vá cobrar do avalista. Mas não acho essa prática saudável. Não é correto gastar mais do que se arrecada, não acho saudável endividar o clube.

Recentemente o presidente Odílio Rodrigues disse que não é possível ganhar títulos e fechar as contas no azul. O senhor concorda?
- Se isso for verdade, vamos fechar o futebol, está tudo errado! O que é isso? Você tem que ficar devendo para vencer? Então o futebol é uma loteria perversa. Você tem que administrar bem, o que não pode é contratar jogador acima do que pode pagar, pôr todos os ovos em uma mesma cesta, contratar 30 jogadores para aproveitar sete... Isso não pode!

Como será sua política de contratações de jogadores?
- A base do Santos será a base do time, basta ver na história. Temos que ter uma base forte, mas não falo só de jogador, falo de comissão técnica também. Tem que evoluir, crescer. Os grandes treinadores do Santos foram Lula, Antonio Fernandes, Formiga, Pepe... Esse são os técnicos vencedores do clube, todos da casa. Depois veio Vanderlei, Leão, Muricy, mas sempre tivemos base de treinadores. O que não quer dizer que tem que pôr o treinador da base na fogueira no profissional e depois perdê-lo. Além disso temos que acertar. O Santos não tem dinheiro para errar, temos que acertar 100% das contratações. E ser muito paciente com quem está aí. O Lucas Lima é um grande jogador, o Mena é o lateral-esquerdo da Seleção Chilena, o Caju é um grande talento.

Você mencionou o Lucas Lima, que veio do Sport. Esse é o tipo de contratação que você pretende buscar, de revelações? Ou vai apostar em medalhões, como foi o Robinho?
- Tem de haver competência de quem escolhe. Não haver erro é saber que não se pode vender seu maior ídolo por 17 milhões de euros e contratar um jogador tecnicamente bem inferior por 13. Esse "gap" é muito pequeno para o desnível entre o Leandro Damião e o Neymar.

O que fazer para minimizar esse tipo de risco?
- Ter competência.

Hoje o Santos contrata após análise e indicação da comissão técnica, do Zinho, gerente de futebol, do Sandro Orlandelli, scout, e do André Zanotta, superintendente de esportes. O senhor concorda com esse modelo?
- Não.

E o que apresenta de proposta?
- Olhar. Não adianta scout, não adianta vídeo, tem que ver jogador.

Pretende acabar com a função do scout?
- Não, é fundamental. Mas como apoio. Não dá para se basear só em números. Você vai me dizer que o scout marca o que o jogador faz sem a bola? Não marca. Você tem que ver o atleta, ter pessoas competentes para olhar. Não dá para trazer o Renato Abreu com 36 anos.

A sua ideia é criar uma equipe de observação?
- Olheiros, muitos! Todos que eu puder. Todo santista tem que olhar. Precisa ter uma equipe profissional, e se tem um scout positivo de um jogador, vamos a campo. Não importa onde, vamos atrás. Sem preguiça.

Isso não comprometeria ainda mais as finanças?
- O que compromete é trazer um jogador sem ver. Você faz um contrato e o jogador não entra em campo.

Você faz diversas críticas à gestão do futebol. Os profissionais que lá estão, como o Zanotta, o Zinho e o Orlandelli, serão demitidos?
- Não sei, não os conheço pessoalmente. Sabe, é muito complicado você dizer que alguém é bom ou ruim se baseando pelo ouvido. Vamos ver. A informação que tenho do Orlandelli é que ele é excelente como scout. O que a gente vê é a periferia dos fatos, não podemos condenar nenhum profissional pelo que a gente olha de longe. Isso seria leviano.

Então podemos entender que, se você for eleito, a montagem do plantel para o primeiro semestre será feita pelos profissionais que lá estão?
- Não.

E como vai avaliá-los então?
- Temos profissionais competentes para avaliar esses profissionais.

Mas não há tempo hábil, logo começa o Paulistão.
- O Paulistão é um campeonato mais fácil, um torneio de começo de temporada, no qual dá para avaliar muita coisa. Nós teremos da eleição até o início do Paulista quase dois meses. Teremos tempo para conhecer essas pessoas, que antes de serem profissionais são seres humanos. Precisamos respeitá-los. Pré-julgamento eu não vou fazer. O André, o Orlandelli e o Zinho precisam nos mostrar a realidade. Desmontar a equipe é uma temeridade.

Por que no marketing você consegue fazer essa avaliação prévia e no futebol não?
- Porque o futebol tem razões que a própria razão desconhece. O marketing hoje é comandado por um excelente publicitário, muito competente. Mas acho que o marketing tem que ser comandado por profissionais de marketing. Não vejo resultado nenhum no marketing do Santos, que está há um ano e meio sem patrocinador master. A última vez que teve de trocar de fornecedor de material esportivo teve de assinar com uma empresa comercial e não industrial...

É um contrato que precisa ser revisto?
- Tem que ser renegociado após o término. Acho difícil manter esse modelo, pois hoje vemos que a fabricante (Nike) tem um interesse limitado e os concorrentes da distribuidora (Netshoes) não têm interesse em adquirir as peças do Santos. É uma "fartura", farta material em todo canto.

Qual é sua proposta para conseguir um patrocinador master do Santos após quase dois anos?
- São duas coisas. A primeira: o Santos teve seu marketing voltado a só um jogador, o Neymar. A imagem do clube foi deixada em segundo plano. Quando ele saiu, o marketing inteiro saiu com ele, muitos foram trabalhar para ele. Aí nós ficamos despidos, colocamos uma outra pessoa para organizar a área, mas o mercado já estava voltando seus olhos para outro canto, a Copa. Aí nós fomos para o mercado com soberba. Quem dá o valor dos patrocínio é o mercado. Nós temos que ouvir o mercado sem soberba, que é a inimiga do comércio. Não adianta dizer que seu jornal tem que ser vendido por R$ 10 se ninguém paga isso. Temos de saber ouvir mercado, o sócio, o torcedor. Saber ouvir sempre!

Além do patrocínio, quais são suas propostas para o marketing?
- Uma delas é a "Sanfest", que nos foi apresentada por dois homens de marketing. É uma ideia muito interessante, fazer uma semana de eventos em Santos para trazer o torcedor para dentro do clube, para dentro da vida do Santos. Nessa semana teremos eventos, jogos, palestras, visitações a todo o equipamento do Santos. Outra ideia é fazer o parque temático do Santos. Outra é fazermos o Santos mais junto da sua torcida. Outra é o planejamento das tabelas dos jogos, de modo que possamos atuar em qualquer arena do Brasil. Para isso temos de ver a melhor data, o melhor adversário... Podemos jogar no Paraná, em Brasília e fazer rendas altíssimas, de R$ 4 milhões.

O que seria esse parque temático?
- O Santos tem uma história maravilhosa, uma vida rica. O parque temático é um local onde as pessoas passam a viver o Santos, como você vive o Beto Carrero World ou a Disneylandia. Não nessa dimensão, é claro, mas na dimensão do clube.

Onde seria isso?
- O Santos tem uma área, por exemplo, que é a Chácara Nicolau Moran, em São Bernardo do Campo. Por que não fazer no meio do caminho entre São Paulo e Baixada Santista?

Com quais recursos fazer isso?
- Com dinheiro do próprio marketing. Isso não precisa ser feito no dia 1º de janeiro de 2015. Recursos aparecem com um marketing bem-feito.

Isso seria possível no primeiro mandato?
- Acho que sim, porque existem parceiros para fazer isso.

Pessoas interessadas em frequentar esse local também? Porque o Santos tem dificuldade para levar gente até ao estádio...
- Será que é tão difícil as pessoas entenderem que o torcedor não está indo ao estádio porque é mais cômodo assistir ao pequeno espetáculo em casa? É por isso que o Santos não leva público. Hoje é mais agradável ir e xingar dentro de um bar, comendo coisinhas e tomando cerveja.

É possível reverter isso? Como?
- Temos que trabalhar, com um marketing ativo e ouvindo o torcedor. Tem que saber exatamente o que está impedindo o torcedor de ir ao estádio. Será que não é a saturação? A falta de dinheiro? Medo do ambiente ou de ser atropelado no meio da estrada? O que será?

Mas esses fatores fogem da alçada do presidente, não?
- Cabe ao presidente, sim, ao marketing mudar. Fazermos campanha, movermos mundos e fundos para encontrar o que o torcedor quer. Você tem que ouvir o torcedor.

E como fazer isso?

- Através de pesquisas, da internet, de audiências públicas, de vocês da imprensa, que repercutem esse público... Ouvir a mídia, que não é só opinião de jornalista, tem a opinião da rua também. Temos que ouvir vocês (jornalistas).

Há também um plano para aumentar o quadro associativo?
- Em 2004, quando eu cheguei no Santos, tínhamos 3 mil e poucos sócios ativos. Conseguimos subir para 25 mil, 26 mil, tiramos da inércia. Com títulos é óbvio que sobe mais. No momento em que você volta para a disputa, para o espetáculo, o torcedor volta também. Mas isso só acontece se tiver algo em troca, você não é sócio por nada ou pelo simples prazer de ter uma carteirinha. Não dá para o sócio não ter os privilégios na compra de ingresso.

Na compra especificamente o sócio tem o privilégio de pagar meia-entrada e comprar antecipado.
- Quem oficializou o meio-ingresso fui eu. Eu redigi a portaria e o Marcelo assinou. O direito de o sócio entrar no estádio só apresentando a carteirinha, sem precisar comprar antecipadamente, fui eu que criei quando estava na Secretaria Social.

Certo, mas esses benefícios já existem.
- Não existem mais, tanto que o sócio tem que comprar antes.

Ele faz a reserva, porque o Santos tem cerca de 60 mil sócios e um estádio para 15 mil pessoas. O benefício já existe.
- A reserva, sim. Mas só a reserva. É só dizer "eu vou".

Você propõe o que? Não haver cobrança?
- A cobrança tem que haver depois. Aí vai o boleto para o sócio, como sempre foi.

Isso tudo já não existe?
- Não, hoje você tem que comprar o ingresso antes.

Existe a opção de fazer a reserva e depois pagar o ingresso na fatura do Sócio Rei.
- Não sei. É assim que está funcionando? Não sei como está funcionando hoje. Como tenho cadeira cativa, a minha situação é um pouco diferente. Não sei. Não vou te responder algo que não tenho segurança. Mas, por exemplo, teve o jogo no Pacaembu contra o Botafogo. Eu tenho uma cadeira cativa coberta na Vila Belmiro. Meu direito seria para sentar nas cadeiras descobertas do Pacaembu. Por que, se na Vila minha cadeira é coberta? Deveria oferecer a cadeira azul, a coberta. Mas isso também é pequeno para a gente discutir agora. O principal é o ouvir: o mercado, o sócio e o torcedor.

Quais são seus planos para a Vila Belmiro? Há quem fale em estádio-boutique e quem priorize o alçapão.
- Eu vou na linha do estádio-boutique, até porque o termo é meu (risos). O futebol velho fala de alçapão, eu acredito no futebol espetáculo, onde o estádio é palco para a televisão, não arena de guerra. Futebol é espetáculo.

Mas ter um alçapão não é ter uma arena de guerra.
- Você está colocando pressão psicológica no seu adversário.

Isso não é um aliado do time?
- Eu acho que não.

O Santos cansou de ganhar jogos pela força da torcida.
- A força da torcida, sim. A Vila Belmiro é temida independentemente de eu poder puxar a camisa pelo alambrado ou xingar e cuspir no meu adversário. Isso não é civilizado. Me desculpem os que defendem a pressão a qualquer custo. O Santos tem de ter um estádio confortável ou vamos jogar todas as arenas fora, vamos voltar a ter jogo no estádio de Guaratinguetá.

Não é possível aliar conforto e pressão no adversário?
- Não. Aqueles que querem pressão defendem que não haja cadeira, querem que haja alambrado... Eu até sou a favor de tirar o vidro da Vila Belmiro, de não ter barreiras desde que o público seja educado e respeite o limite do campo de jogo.

Você também defende a ampliação da Vila Belmiro?
- Sim, há um projeto para modernização que prevê 25 mil pessoas na Vila. Mais não é possível por conta do entorno. Quando se fala em ampliação da capacidade tem que discutir também estacionamento, acessibilidade... O estádio precisa ser pensado como um todo.

Quais são suas propostas para as categorias de base?
- Temos conquistados títulos, promovido garotos, mas me assusta ver notícias de que dispensamos cem atletas. Jogadores você recebe e dispensa todo dia, não precisa fazer pacotão de dispensa. A gente precisa avaliar o trabalho, gosto muito do Lima, do Abel, do Pepinho, do Joãozinho Rosa, eles são competentes.


ENTREVISTA CONCEDIDA AO GLOBOESPORTE

Planejamento para jogos fora da Vila
- Não dá para, em uma semana, mudar o local de um jogo. O Santos precisa jogar em função de renda, de objetivos, mas isso é definido pelo marketing. É planejamento, não é para mudar em cima da hora. Quando sai a tabela, temos de planejar. Não podemos querer fazer as coisas de afogadilho. Temos de jogar onde dará mais renda. Se há algum evento naquela região, se é um momento especial. Tudo passa por um planejamento sério, e as coisas não podem ser feitas por acaso. E esse é o principal trabalho do marketing. Planejar o jogo, o dia, o evento. Não se faz um acontecimento sem pensar no entorno. O Santos precisa ganhar dinheiro com seus espetáculos. Isso é fruto de um estudo para fazer as coisas com seriedade.

Nova Arena
- O Santos não tem dinheiro para construir uma nova arena, precisaria de um investidor que arcasse com isso. Temos propostas sérias para que o Santos caminhe para um porto seguro. Tem quem diga “Ah, vou demolir a Vila e construir uma nova”. O Santos não tem dinheiro para isso. Temos que trabalhar com responsabilidade. O santista está cansado de propostas vazias.

Pouco público na Vila
- Tem que ter identidade. A alma do time deve ser a da torcida, não a do treinador. A torcida não quer ver o Santos retrancado, preocupado em não tomar gols. O Santos é um time jovem, alegre, ofensivo, que marca gols... Quando se dá a identidade da torcida à equipe, ela volta ao estádio. Aí a Vila, o Pacaembu e até o Maracanã são pequenos.

Relacionamento com torcidas organizadas
- Acho que deve sim (ter relacionamento). A torcida organizada é importante. Não podemos ter “clubefobia”. Acho que o futebol não tem graça se não tiver torcida. O futebol é uma coisa de relacionamento humano. A torcida arrepia qualquer um de nós. Mas ninguém está falando de brigas, de tocaias... Isso é algo absolutamente condenável. Isso não é torcida. Torcida é festa, alegria em campo, e deve ser respeitada. A organizada tem de ser respeitada como entidade, mas trabalharmos em conjunto para que esse torcedor seja respeitado como sócio. Mas eu não posso pedir que sejam sócios se eu não dou condições para isso. Tenho que dar uma atenção especial para que os membros das organizadas se filiem. Vamos implantar esse diálogo.

Categorias de base
- Temos de subir os meninos com responsabilidade. Temos que nos reunir com os treinadores da base, trocar ideias, saber que o jogo vem antes do jogador. Isso tudo faz parte do planejamento sério, com pessoas que conhecem o futebol. É difícil fazer futebol com quem não conhece. É preciso conhecer o elenco, saber o que acontece. Essa equipe nós temos. Contratações e vendas pontuais provavelmente serão feitas, mas é preciso respeitar um planejamento sério, com uma pré-temporada bem feita. O Santos não tem dinheiro para jogar pela janela. Contratações não podem ser erradas. Não temos espaço para erros.

Contratos perto do fim
- Não temos lista de dispensa. Isso vai depender do treinador. Primeiro temos de conversar com ele, saber se ele vai ficar, pois não é uma decisão só nossa. Conversar com o resto da comissão técnica, com o gerente de futebol, o superintendente... O Santos tem hoje uma diretoria que está trabalhando. Não caberia a nós ou a nenhum candidato atropelar esse processo. Espero que, no dia 6, o doutor Odílio dê o espaço para essa transição, para que se crie um gabinete de transição. Tenho certeza de que fará porque é um verdadeiro alvinegro.

Aproveitar jovens
- A ideia é trabalhar com jovens e com o time que está ai. Promovermos a base. O jovem sempre foi campeão pelo Santos. Foi assim em todas as gerações. Antonio Fernandes, Del Vecchio, Pelé, Pita, Juary, Cesar Sampaio, Giovanni, Robinho, Diego, Neymar, Gabriel... Temos que respeitar essa história. O Santos tem tradição. Mas precisar preparar, fazer plano de carreira para os treinadores da base, fazer todos evoluírem, e aí sim poderemos promovê-los sem correr o risco de termos que dispensá-los em seguida.

Comitê de Gestão
- No Santos, após a eleição do presidente Luis Alvaro, os homens que iriam investir no clube não confiavam na presidência. Criaram o “Grupo Guia” para tomar conta do dinheiro que estariam investindo. Diziam que viria um investimento de R$ 40 milhões... Se esse investimento veio, foi de forma transversa. Criaram o grupo para controlar os atos do presidente, e o Comitê de Gestão para manter esse controle. Foi assim que aconteceu. Instrumento de governança é o Conselho de Administração. Hoje, o regime que se diz profissional tem uma gestão com nove amadores. O acabar com o Comitê de Gestão passa por alguns passos. Temos enviar proposta ao Conselho Deliberativo, alterar o estatuto com uma proposta que saia do Conselho... Não depende só do presidente, mas do quadro associativo. E partir para uma administração profissional.

Como formar esse Conselho de Administração
- Serão pessoas com capacidade profissional comprovada, com vida pessoal própria, dando ao clube uma parcela do tempo. E profissionais com dedicação exclusiva, como um CEO, com as superintendências administrativas e de futebol e descendo no organograma. Isso é governança corporativa. Mas precisa ter experiência para fazer isso. Caso contrário, cria-se um monstro de sete cabeças.

Patrocínio master
- O Santos está negociando o patrocínio master com a empresa chinesa que já está estampando a camisa. Não podemos atropelar o trabalho. Somos candidatos, temos de ter a seriedade no trato das coisas. Não podemos ser levianos.

E assim, termina a série de entrevistas com os candidatos à presidência do Santos Futebol Clube!

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